Entrou no estabelecimento e dirigiu-se à mesa do canto esquerdo, como costume, enquanto o cheiro de café invadia sua consciência. Sentou-se de costas para a parede, tendo uma visão completa do local, e acenou para o garçom, que já sabia de cor o pedido que nunca mudava. Mas ela mudava. Mas ela, mudava?
Que seria ela a partir daquele momento? Continuaria a mesma pessoa que entrou por aquela porta no dia anterior e em todos os outros dias antes deste? Continuaria a mesma garota sentada no canto esquerdo contra a parede, observando outras pessoas e vivendo através delas? Continuaria mesmo garota? Continuaria mesmo, garota? Poderia continuar?
Não sabia.
Não sabia nem se era o que pensava. Se era garota de canto esquerdo. Se era garota de contra-parede. Se era garota de observar. Se era garota de viver através de outras vidas. Se era garota de um pedido só. Tudo poderia ser um erro, não podia?
Sentiu o pânico invadir-lhe. Teria feito tudo errado todo o tempo? Tudo poderia. Ser um erro, não podia.
Respirou fundo. Medo não parecia certo. Tudo poderia ser. Um erro não podia?
Uma xícara de café com leite. O garçom chegou com o pedido. O mesmo pedido de sempre. O mesmo pedido de todos os dias. O mesmo pedido de canto esquerdo contra parede de um observador. O mesmo café-com-leite de quem vive por não viver.
Não sou garota de café-com-leite, deu-se conta. E de que era, então? Não sabia.
Pediu o cardápio. Tentaria até descobrir.

